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E-mails detalham problemas de estrutura enfrentados pela Arena Corinthians

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Em janeiro, essa era situação de buraco perto da entrada do setor norte. O reparo foi concluído. Foto: Diego Canha

Em janeiro, essa era situação de buraco perto da entrada do setor norte. O reparo foi concluído. Foto: Diego Canha

E-mails trocados por Anibal Coutinho, arquiteto responsável pelo projeto da Arena Corinthians, com Roberto de Andrade, Andrés Sanchez e profissionais ligados ao estádio alvinegro, detalham uma série de problemas que foram enfrentados pela casa corintiana. As mensagens obtidas pelo blog relatam o aparecimento de buracos no piso dos estacionamentos, um grande vazamento de água e até a possibilidade de abalo nas arquibancadas. O cenário descrito na época era de risco de acidentes e suspeita de falhas de montagem na obra e uso de material de baixa qualidade.

Em 13 de janeiro de 2016, Rita de Cassia Pontes Lima, funcionária da CDCA, escritório de arquitetura da qual Coutinho é sócio, registra em mensagem eletrônica para o arquiteto um cenário caótico em Itaquera.

“A equipe de arquitetura da arena entrou em contato para relatar que o piso dos estacionamentos descobertos leste e oeste da Arena Corinthians está apresentando diversas rachaduras. Alguns locais cederam criando sulcos e crateras profundas (voçorocas)…Também fomos informados que a CNO [Construtora Norberto Odebrecht] os está preenchendo com concreto”, informou Rita.

Reprodução de foto de buraco na área extera do estádio e que foi enviada pelo arquiteto a cartolas corintianos

Reprodução de foto da área externa do estádio enviada em janeiro por arquiteto para dirigentes do Corinthians

 

No dia seguinte, Coutinho disparou o sinal de alerta com um e-mail para o presidente do Corinthians com cópia para Andrés. Além de sugerir medidas como perícia imediata nos locais afetados, ele recomendou que fosse “considerada como uma das possíveis causas destes eventos o vazamento em tubulação da arena no mínimo de dezembro de 2014 a maio de 2015. O problema teria ocasionado a saída de cerca de 20 milhões de litros de água”.  

Notificado sobre os problemas, o escritório de advocacia Molina & Reis, que trabalha para o clube, pediu um estudo mais detalhado dos problemas ao arquiteto. Ele acionou o engenheiro Carlos Pereira de Magalhães Neto, que foi o primeiro fiscal do Corinthians na obra. O especialista fez nove observações sobre os buracos abertos na arena.

Em sua análise, de caráter preliminar, o engenheiro escreveu que os buracos no estacionamento foram provavelmente provocados por rompimento das tubulações de águas pluviais devido a recalque do terreno ou problemas de montagem ou de projeto. Ele lembrou que as chuvas no período foram acima da média e que defeitos na rede que encaminha a água pluvial podem causar solapamentos como os apresentados.

Sobre as causas do vazamento interno das tubulações ele escreveu que podem ter sido “problemas de montagem ou de qualidade dos materiais aplicados”.

Magalhães também indicou que os buracos perto da entrada do setor norte e da Avenida Radial Leste eram mais preocupantes e deveriam ser melhor investigados. Esses eram os maiores rombos no terreno e foram reparados em obras que duraram meses.

O engenheiro ainda demonstrou a preocupação de que a estrutura da arquibancada pudesse ter sido atingida pelos problemas. “A estabilidade das arquibancadas deverá ser analisada à luz dos projetos de fundações e de estruturas (lembrando-se que foram utilizadas estacas de pré-fabricadas de concreto, menos suscetíveis a solapamentos do solo junto aos blocos de fundação”, escreveu o engenheiro. Ele também observou que “as calçadas, se solapadas, poderão ruir, pois se apoiam diretamente sobre o solo”.

Em relação à informação de que a Odebrecht estaria enchendo os buracos com concreto, ele disse que a ação poderia não resolver o problema, já que os buracos poderiam ressurgir ou aparecer em outros pontos.

“De qualquer modo, a questão dos vazamentos precisa ser adequadamente investigada e monitorada por um dado tempo, pois afundamentos de pátios e calçada poderão causar acidentes e estabilidade de taludes comprometida. Também apresenta riscos de acidentes, tanto por mau funcionamento das tubulações de drenagem pluvial como das tubulações de adução (água potável)”, afirma outro trecho do relatório.

O engenheiro encerra suas recomendações destacando que a Odebrecht deverá ser acionada, devido à extensão do problema.

Em outra mensagem, no dia 21 de janeiro, Coutinho demonstrou preocupação com o fato de a arena receber a partida entre Corinthians e Cruzeiro, pelas semifinais da Copa São Paulo de Juniores apenas oito dias depois da descoberta dos buracos. “Como soube pela imprensa da realização do jogo nesta sexta-feira e, preocupado no sentido de alertá-los quanto as responsabilidades civis e criminais que possam lhes vir a ser imputadas em caso de algum tipo de sinistro, reforço que sejam tomadas as providências descritas no e-mail do engenheiro Carlos Magalhães, como já havia lhes alertado no e-mail do dia 14 deste mês”, escreveu o arquiteto.

Odebrecht não comenta

O blog procurou a Odebrecht para saber se todas as medidas sugeridas pelo engenheiro foram adotadas, como análise para saber se a estabilidade das arquibancadas foi afetada. E também para ouvir a construtora sobre a suspeita de uso de material de baixa qualidade e de falhas de montagem durante a obra. Porém, sua assessoria de imprensa informou que a Odebrecht não vai se manifestar.

Por sua vez, o arquiteto Coutinho disse que não poderia comentar e-mails que enviou em caráter confidencial.

A assessoria de imprensa do Corinthians respondeu que todas as situações apontadas pelo engenheiro foram relatadas para a Odebrecht, responsável técnica pela construção da arena.

Abaixo, relatório do engenheiro Carlos Pereira de Magalhães sobre os problemas na arena.

Reprodução

 

 

Jpeg

Abaixo, mensagem enviada por Anibal Coutinho a Roberto de Andrade e Andrés Sanchez antes de jogo da Copa São Paulo na arena em meio aos problemas em janeiro.

Reprodução

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