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Cartola admite pagar para sócio inadimplente e agita eleição do Corinthians

Perrone

Com Dassler Marques, do UOL, em São Paulo

Um áudio no qual o secretário geral do Corinthians, Antônio Jorge Rachid Júnior, promete que Paulo Garcia pagará taxas de regularização de sócios inadimplentes apimentou mais a disputa eleitoral no clube. A gravação foi encaminhada pelo dirigente a integrantes da chapa que ele apoia para o Conselho Deliberativo e logo se espalhou. Tanto Rachid como Garcia, conselheiro influente e possível candidato à presidência, confirmam a autenticidade da mensagem.

''O que eu falei tá falado. Não retiro. É a minha voz mesmo na mensagem'', disse Rachid ao blog.

''Se algum de vocês, na relação de votos, tem alguns inadimplentes, que com certeza votarão na nossa chapa, eu vou ficar no clube lá até mais ou menos umas duas horas pra tentar colocar alguém em dia. Mas com certeza de voto porque não vamos pagar pros outros pra votar em inimigo, não é verdade?'', afirmou Rachid na mensagem. Ela foi endereçada, segundo ele, para integrantes da chapa de candidatos chamada Fiéis Escudeiros.

Num recado complementar, o dirigente revela que o pagamento será feito por Garcia, proprietário da Kalunga e cotado para ser candidato à presidência do Corinthians em 3 de fevereiro. ''Só pra terminar a mensagem que eu não terminei, pra coisa ficar bem clara, pra não ter nada escondido, a pessoa que tá proporcionando que se pague, a pessoa que tá pagando é o nosso amigo Paulo Garcia. Vai pagar pra nossa chapa, mas também pra quem de preferência vote nele também. Entenda bem, não tô pedindo voto pra ele, pela consciência de cada um. Eu não acho justo ele pagar pra votar em outro, tá certo, bem claro? Espero que vocês entendam, não é trazer e tem que votar nele. Não tem, é a consciência de cada um, coisa de homem'', argumenta Rachid no segundo áudio.

Garcia confirmou que fez pagamentos para conselheiros poderem votar, mesmo sem achar ético. Ele diz ter tomado a atitude depois que na última sexta a diretoria anunciou que daria até o próximo dia 10 desconto de 50% (R$ 600 em caso de título familiar) para os inadimplentes que queiram regularizar suas situações. Quem fizesse isso até domingo teria direito a voto. A medida gera polêmica porque o estatuto alvinegro proíbe todo tipo de anistia financeira aos associados a partir de 12 meses antes da eleição.

''Não é ético, mas tem que jogar o jogo. Fizeram na última hora para eleger as chapinhas (de candidatos a conselheiro) deles (diretoria) e ter o conselho na mão. O Rachid me ligou para ver se eu colaborava, e eu disse que sim. Paguei com meu cartão de crédito, outros candidatos estavam pagando com dinheiro vivo. É sempre assim, até mortos votam. Meu pai (Damião Garcia) ficou dez anos brigando na Justiça. É muito difícil ganhar da situação, eles jogam sujo'', disse Garcia em mensagem por telefone. O conselheiro não soube dizer quantos sócios beneficiou com os pagamentos. ''Poucos porque foi em cima da hora'', declarou.

Apesar de seu histórico de opositor em relação ao grupo que está no poder, Garcia se aproximou do presidente Roberto de Andrade quando ele precisou de ajuda para tentar impedir seu impeachment. Rachid foi indicado por ele para a secretária geral e se transformou num dos principais articuladores da vitória contra o impeachment.

Mesmo admitindo a participação no movimento para resgatar sócios inadimplentes, Rachid se diz contrário ao desconto dado aos associados.

Ouça abaixo as mensagens de Rachid.

Briga na Justiça

Desde o anúncio da promoção, o Parque São Jorge está em polvorosa. Já há conselheiros que estudam entrar na Justiça para tentar impedir quem se regularizar com desconto de votar ou que seus votos sejam computados separadamente até uma definição nos tribunais, como aconteceu recentemente em eleição no Vasco. ''O grupo Inteligência Corintiana vai tomar medidas judiciais para impedir essas pessoas de votarem se esgotarmos as instâncias administrativas'', disse Heroi Vicente, que apoiava a ala de Andrés Sanchez, mas virou opositor. Ele afirmou que seu grupo decidiu por unanimidade estudar uma ação na Justiça.

Romeu Tuma Júnior, um dos opositores candidatos à presidência, também analisa a possibilidade de ir à Justiça. Ele protocolou pedido na Comissão Eleitoral do clube para que quem desfrutou do desconto seja retirado da lista de votantes. Nesta segunda, o candidato deve apresentar outro requerimento pedindo esclarecimentos sobre quem pagou a taxa de regularização de cada sócio.

O grupo Corinthians Grande, que tem Felipe Ezabella como candidato à presidência, também deve apresentar documento nesta segunda pedindo que a comissão retire da lista de votantes ou de candidatos ao conselho os sócios que normalizaram suas situações com o desconto.

Os situacionistas entendem que a promoção não fere o estatuto porque consideram como anistia apenas o perdão integral da dívida, não parcial, como no caso do desconto.

Andrés Sanchez, da situação, e Antônio Roque Citadini, opositor, completam a lista de candidatos à presidência.