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‘Cara do Marco Polo’ e ‘homem do não’. Conheça Rogério Caboclo

Perrone

A sala de reuniões na Federação Paulista estava repleta de cartolas entediados e apressados para deixar o local. Em pé, empolgado, apresentando infinitas planilhas abarrotadas de números, estava Rogério Caboclo, então jovem dirigente da entidade e que hoje está prestes a se transformar no novo presidente da CBF.

Foi mostrando organização e obsessão pelo controle das finanças da entidade estadual, como na longínqua cena descrita acima, que ele começou a conquistar Marco Polo Del Nero. Nesta quinta, seu padrinho político articulou a manobra que assegura apoio da maioria das federações estaduais para a candidatura de Caboclo, 45 anos, à presidência da confederação. Não sobraram entidades para outro candidato conseguir o aval e atingir o mínimo de oito federações para se candidatar, além do apoio de mais cinco clubes. A eleição pode ocorrer até abril de 2019.

Conselheiro do São Paulo e filho do Carlos Caboclo, tradicional cartola tricolor, Rogério foi diretor executivo do clube aos 28 anos na gestão do presidente Paulo Amaral, que hoje atua na federação paulista. Dois anos depois, Caboclo chegou à FPF. Lá organizou e blindou a área financeira. Só passava informações para o presidente Del Nero. Reinaldo Carneiro Bastos, que era vice e atualmente preside a entidade, tinha acesso a todos os setores, mas ficou sem trânsito em relação às finanças.

Reinaldo foi justamente o maior prejudicado com a decisão de Marco Polo de transformar Caboclo em seu sucessor. O presidente da federação preparava campanha para tentar sentar na cadeira mais cobiçada da CBF.

Lealdade

Demonstrando fidelidade canina a Del Nero, Rogério virou seu homem forte. Naquela época, ele começou a mostrar uma característica que mais tarde viria a incomodar presidentes de federações na confederação: a facilidade em dizer não a pedidos de dirigentes e a dificuldade em liberar verbas. Ninguém conseguia nada sem convencer Marco Polo a falar com seu diretor.

Depois de ser vice da FPF, ele virou CEO da CBF, com José Maria Marin como presidente, mas por obra de Del Nero. A patente de oficial do exército de Marco Polo ficou rapidamente evidente para quem trabalhava na confederação. Um ex-funcionário conta que Marin foi logo avisando: ''cuidando com o que você fala para o Rogério porque ele é cara do Marco Polo''.

O novo executivo impressionou seus colegas de trabalho pela formalidade e gentileza no trato diário. Mesmo gentil, ele colecionou desafetos principalmente por conta de uma série de demissões atribuída a ele. O paulista organizado e polido passou a ser visto como uma pessoa obcecada em abrir espaço para os homens da confiança de Del Nero na confederação.

Entre dirigentes, consolidou a fama de ser ''o homem do não'' por causa dos pedidos negados. Enquanto isso, Caboclo se orgulha de ter cortado gastos e aumentado receitas, entre outros feitos na CBF. Um deles é a negociação do novo contrato com a Globo referente à transmissão da Copa do Brasil. Segundo a entidade, a competição se tornou a mais rentável do hemisfério sul pagando R$ 50 milhões para o campeão.

Recentemente, Rogério foi escolhido para ser CEO da Copa América de 2019, marcada para o Brasil. Ele também atuou como diretor de Relações Institucionais do COL (Comitê Organizador Local) da Copa de 2014.

Cartolas que frequentam a Confederação, classificam Caboclo como técnico, objetivo, eficiente na área financeira, porém sem conhecimento político. Essa é a principal crítica dos que são contrários à sua candidatura. Ele não teria desenvoltura para agir nos bastidores da Fifa, por exemplo, por nunca ter dirigido uma entidade antes. Isso, na análise de alguns conhecedores da CBF, é sinal de que Caboclo será guiado por Marco Polo.

Suspenso provisoriamente pela Fifa, o presidente suspenso terá seu caso decidido até o próximo dia 15. No cenário atual, se for banido ou levar um longo gancho por conta de acusações de corrupção, Del Nero teria o conforto de ser sucedido por alguém que, acredita, nunca o trairá.

Hoje, apesar de o vice Coronel Nunes ter assumido a presidência, Caboclo já é tido como quem preside a confederação defendendo os desejos do chefe afastado. Marco Polo nega as acusações de corrupção.

Rogério Ceni

Ao mesmo tempo em que elogiam a capacidade administrativa do provável novo comandante da confederação, cartolas e ex-funcionários da CBF apontam a falta do assunto futebol em suas conversas. Jogos e atuações de jogadores são temas que não parecem empolgar o candidato à presidência.

Um de seus seis interlocutores ouvidos pelo blog afirma ter como rara lembrança de Caboclo falando sobre futebol uma mágoa com Rogério Ceni. Pelo relato, o dirigente não engoliu o episódio em que representante do ex-goleiro apresentou uma proposta que seria do Arsenal, em 2001. O presidente são-paulino na ocasião, Paulo Amaral, de quem Caboclo foi diretor, consultou o clube inglês, que negou ter feito a oferta. O episódio terminou com uma suspensão ao goleiro.

O pupilo de Del Nero pode ser ainda descrito como um homem que gosta de negócios em família. Casado e com um filho, seu nome aparece na Junta Comercial de São Paulo como sócio em quatro empresas, todas ao lado de parentes. Advogado e administrador de empresas, ele está, segundo os registros, entre os donos de Caboclo Participações e Empreendimentos Imobiliários, Caboclo Distribuidor e Romma Distribuidora, que são dois atacados de mercadorias, em especial alimentos, e Cromma Logística Empresarial, voltada para transporte de cargas.

Doença

Já como cartola da CBF, Caboclo passou por um momento dramático. Esteve internado por causa de uma grave doença. Ele se recuperou e reassumiu suas funções bem mais magro. O blog pediu à assessoria de imprensa da CBF explicações sobre a enfermidade, mas não obteve resposta.

Já um pedido de entrevista foi negado pela assessoria. Caboclo não quer se pronunciar neste momento.

Num momento em que a notícia da manobra de Del Nero por ele ainda chacoalha os bastidores do futebol brasileiro, o provável futuro presidente da CBF demonstra não querer se expor.

Colaborou Rodrigo Mattos, do UOL, no Rio de Janeiro

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