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Opinião: Neymar dá motivos para mais rejeição ao monetizar desabafo

Perrone

30/07/2018 08h00

"Uma desculpa feita por um redator publicitário?". A pergunta foi postada por Ewerton Moraes Sarmento na página da Gillette no Facebook. Ela dá a o tom do efeito contrário que a maneira como Neymar escolheu para fazer sua principal manifestação após a Copa do Mundo tem potencial para causar.

O comercial veiculado neste domingo em intervalo do "Fantástico" com o jogador narrando comentários sobre as críticas disparadas contra sua atuação no Mundial é repleto de brechas para quem pega no pé do atacante pegar mais ainda.

A principal delas é o fato de o astro da seleção brasileira monetizar até seu discurso sobre a queda (ou suas quedas) na Rússia. Grande parte dos torcedores que olham torto para Neymar o enxerga como quem coloca o dinheiro acima de tudo. Substituir declarações na zona mista depois da derrota por 2 a 1 para Bélgica por um ensaiado texto divulgado por um de seus patrocinadores, obviamente, não ajuda a apagar essa imagem.

"Trava de chuteira na panturrilha, joelhada na coluna, pisão no pé. Você pode achar que eu exagero. E, às vezes eu exagero mesmo. Mas a real é que que eu sofro dentro de campo", diz trecho do discurso publicitário. E qual atacante não sofre? É a pergunta natural que se faz ao ouvir o desabafo. Prato cheio para quem acusa o craque do PSG de estar mais preocupado em se fazer de vítima do que em vitimar rivais com seu futebol refinado.

"Agora você não imagina o que eu passo fora dele (campo)", diz Neymar completando a afirmação anterior. Nesse ponto é como se ele passasse um marcador de texto nas palavras do coordenador da seleção brasileira, Edu Gaspar, responsáveis por irritar boa parte dos brasileiros. O cartola falou que "não é fácil ser Neymar" e que "chega a dar pena em alguns momentos porque o que esse menino sofre não é fácil".

Agora imagine o trabalhador que já se prepara para dormir e levantar às 5h da manhã para pegar no batente na segunda-feira ouvir um dos jogadores mais bem pagos do planeta se queixar das durezas de sua vida. E isso ganhando dinheiro para falar. Não pode descer bem.

Se Neymar sofre com algo terrível fora de campo e que impede uma análise correta sobre seus atos, ele já deveria ter revelado o problema faz tempo. Mas, se entende ser algo estritamente pessoal, deve guardar para ele. Falar de maneira enigmática só confunde a opinião pública.

Na peça publicitária, o jogador também lembra o menino que existe dentro dele. Um dos argumentos de seus críticos é o de que ele ainda não amadureceu. Mais uma vez, as palavras escolhidas não o favorecem.

Neymar ainda afirma que demorou a aceitar as críticas. Como acreditar na sinceridade da declaração feita em um comercial?

Para encerrar, o atacante diz que você "pode jogar essas pedras fora e me ajudar a ficar de pé. E quando eu fico de pé, parça, o Brasil inteiro levanta comigo". Nada poderia ser tão emblemático do que deixar para o encerramento o argumento que norteia sua família e seu estafe. O de que os brasileiros, incluindo os jornalistas, não devem criticar Neymar, mas sim apoiá-lo de maneira incondicional. Não faltaram nem os parças, também campeões de rejeição entre os que apontam o estilo de vida do jogador do PSG como obstáculo para ele alcançar Messi e Cristiano Ronaldo.

O conjunto da obra publicitária aproxima o atacante da figura intragável pintada nas redes sociais por "haters". E o distancia do Neymar visto no hotel da seleção em Sochi. Um cara solícito diante dos fãs na maioria das vezes, que brincava com filhos de outros jogadores, convivia sem melindres com os jornalistas por lá hospedados e demonstrava preocupação em relação à família, em especial no tocante à irmã Rafaella. Ou seja, um sujeito muito mais cativante do que aquele que tentou conquistar consumidores no intervalo do "Fantástico".

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

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