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Opinião: demitir Carille não é o caminho mais suave para o Corinthians

Perrone

20/10/2019 11h07

Fábio Carille tem errado muito neste ano. Já estamos perto do final da temporada e ele ainda não conseguiu dar um padrão tático sólido ao time, fazendo constantes mudanças infrutíferas. Além disso, algumas de suas entrevistas têm sido desastrosas, expondo desnecessariamente jogadores. Mesmo assim, este blogueiro entende que demitir o técnico agora ou após o final do ano, como quer parte da torcida, não é o melhor caminho e nem o mais fácil para o Corinthians.

A demissão é pedida por parte significativa dos torcedores. Enquete feita pelo blog em seu  perfil no Twitter entre as manhãs da última sexta (18) e do último sábado terminou com 51% dos participantes entendendo que Carille não deve ficar no clube para o próximo ano. Não era necessário ser corintiano para votar.

Abrindo a lista de argumentos para demonstrar porque demitir o treinador alvinegro agora não seria um caminho suave, aparece a questão financeira. Atolado em dívidas e execuções na Justiça, o Corinthians teria que pagar multa contratual para o técnico, que tem contrato até o final de 2020.

Outro ponto importante nessa discussão é o de que Carille não é o único responsável pelo fato de a equipe não render mais no Brasileirão. Existe um pacote de problemas que não depende diretamente dele e que se não for sanado continuará atrapalhando a vida do clube.

Nesse kit indesejável, de novo aparece a conta bancária. O alvinegro não tem dinheiro para contratar caras que chegam e resolvem. Assim, um novo treinador precisaria de tempo para armar uma equipe forte com reforços medianos. Como acontece em todas as equipes brasileiras não há tempo.

Pelo menos em tese, o atual comandante alvinegro tem maior chance de superar as dificuldades mais rapidamente por conhecer cada centímetro do clube. Um novato teria que entender a política corintiana, a influência de empresários no cotidiano alvinegro e o próprio elenco para conseguir bom rendimento. Isso leva tempo.

A prova é de que apesar de ser malhado e com todos os problema Carille levantou o tricampeonato paulista neste ano, chegou na semifinal da sul-americana e até aqui fez boa parte do Brasileirão atrás apenas de Flamengo, Palmeiras e Santos. Dos três, só o clube da Vila Belmiro não tem mais grana para investir no futebol do que o Corinthians. Isso mostra a capacidade de Carille de obter resultados numa agremiação que conhece tão bem como talvez só Tite conheça atualmente.

Esses resultados também deveriam pesar na análise sobre a possível demissão do treinador. Apesar do risco de uma queda brutal no Brasileiro diante das últimas fracas atuações, o desempenho do time nas competições que disputou até agora está longe de poder ser considerado péssimo.

Entre os problemas que não têm Carille como pai, está a questão do preparo físico. É visível que o time não possui fôlego. Não consegue manter ritmo forte nem por 45 minutos. Não se sabe se o planejamento da preparação física não está sendo bem feito ou se jogadores não se aplicam nos treinamentos e não se cuidam fisicamente como deveriam. O fato é que nem o queridinho do Brasil no momento, Jorge Jesus, faria muito com um time sem gás. Talvez, a diferença seja que o português agisse para mudar o cenário, algo que diretoria e Carille não fizeram.

A direção, aliás, também serve para explicar porque a simples demissão do atual comandante teria pequeno potencial de cura. Se ela não diminuir seus próprios erros, o treinador que chegar também sofrerá.

Primeiro, os cartolas precisam parar de falhar tanto nas contratações. Os dirigentes deveriam se incomodar mais por contratar tantos atletas que mal chegam a jogar pelo clube e são emprestados ou devolvidos. Nessa lista estão nomes como Tiaguinho, Bruno Xavier, Luidy, Sergio Díaz e Gustavo Silva. Há também os que seguem no elenco, mas rendem pouco como Ramiro, Araos, Régis e Everaldo.

Para melhorar seu desempenho em relação a reforços, os cartolas precisam confiar menos em indicações de empresários e da própria comissão técnica. O negócio tem que ser feito com critérios, de forma técnica. Não na base da aposta.

Além de tudo isso, se a opção for por demitir Carille, o alvinegro estará exposto a gênios de plantão que tiram da cartola nomes improváveis para comandar o time, como ocorreu com Cristóvão Borges em 2016.

Resumindo, na minha opinião, está ruim com Carille, mas pode ficar pior sem ele. O atual treinador pelo menos tem um histórico vencedor no clube e já demonstrou suas qualidades. Se quiser continuar no Corinthians, algo que não tenho certeza, ainda pode entregar muito ao clube. Antes, porém, é necessária uma conversa franca com a direção para que ele diga se está de saco cheio e quer partir. Se a resposta for positiva, é só pagar a multa e ser feliz em outro lugar.

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

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