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Opinião: Flamengo é caso raro de projeto viável no futebol brasileiro

Perrone

24/11/2019 11h48

O site do Flamengo guarda um documento que ajuda a explicar o sucesso do atual campeão da Libertadores e líder do Brasileirão. Trata-se da proposta de readequação orçamentária de 2019. Nela, em algumas linhas está descrito o projeto que visava montar uma equipe com medalhões, imediatamente competitiva.  O fato de cerca de nove meses depois da apresentação do relatório o rubro-negro já comemorar o título continental e estar com uma mão na taça nacional transforma o projeto num raro caso de planejamento cumprido no futebol brasileiro.

A previsão orçamentaria foi alterada para injetar mais dinheiro no futebol com o objetivo de montar uma equipe mais forte do que a do ano anterior. Então, foram adicionadas ao orçamento antecipações de recebíveis no valor de 5,4 milhões de euros (por volta de R$ 24,9 milhões pela cotação atual) e financiamento de R$ 100 milhões para serem pagos entre 2020 e 2021. Também foi previsto investimento de R$ 108 milhões em direitos econômicos de jogadores para atuarem no mínimo entre dois e três anos pelo clube da Gávea.

Como justificativa para a estratégia escolhida, a diretoria escreve no documento que a meta é priorizar a performance esportiva com jogadores de alto nível e montar o time no começo da temporada, mas com um investimento a médio prazo, entre três e quatro anos. Na ocasião, o clube já havia começado o ano contratando atletas prontos. Chegaram Gabigol, Bruno Henrique e Rodrigo Caio. Logo depois veio Rafinha. Já na metade da temporada, destoando do previsto, vieram Filipe Luis, Pablo Marí e Gerson.

Em outro trecho, o documento diz que a ideia é montar o time na janela de transferências de janeiro, postergando as vendas para a janela europeia do meio do ano, o que criaria um cenário isento de dependência de vendas para custear as despesas.

Apesar do aumento nos gastos do futebol, o orçamento reajustado previa superavit do clube no ano de aproximadamente R$ 87 milhões. São cerca de R$ 75,6 milhões a menos do que projetado inicialmente. Relatório financeiro do Flamengo referente a 30 de setembro de 2019 mostra que o clube, até então, acumulava superavit de R$ 74.721.000.

As despesas operacionais do primeiro trimestre foram de R$ 531.837.000, superando a previsão para o ano inteiro, que era de R$ 422.494.000. Porém, a receita líquida média mensal (cerca de R$ 70,4 milhões) supera a orçada ( por volta de R$ 59,9 milhões). Além disso, só com a premiação pelo título da Libertadores, sem contar os prêmios das outras fases, o Flamengo assegurou cerca de R$ 50 milhões.

Além de servir como guia para decifrar o triunfo rubro-negro, a documentação arquivada no site do clube pode muito bem ser um roteiro para dirigentes de outras agremiações. Mas não é fácil. É preciso montar um projeto eficiente e segui-lo cuidadosamente. Não adianta colocar no papel promessas de grandes contratações e títulos sem conexão com a realidade, como faz a maioria dos times brasileiros.

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

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