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Engajado, Prass vê elite do futebol do país omissa em relação a problemas

Perrone

10/04/2020 04h00

Famoso, integrante da galeria de ídolos da história do Palmeiras e tranquilo financeiramente. Ao mesmo tempo, preocupado com companheiros que ganham muito menos, com aqueles que já perderam o emprego por conta da paralisação dos campeonatos em tempos de quarentena e incomodado com o que chama de omissão dos jogadores da elite do futebol brasileiro em relação a problemas estruturais da modalidade no país. Esse é o Fernando Prass, goleiro do Ceará, que você vai ver na entrevista abaixo.

Blog do Perrone – Você faz parte de um novo sindicato, dos atletas da cidade de São Paulo. Como membro dessa entidade, você participou das reuniões entre clubes e jogadores na qual os atletas recusaram proposta dos dirigentes de reduzir os salários em 25% durante a suspensão dos jogos por conta da pandemia de Covid-19? 

Fernando Prass – Participo do sindicato, tenho o cargo de delegado. Mas, nesse caso, participei das conversas com o presidente do sindicato do Ceará e com a Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol). As decisões acabaram sendo individuais, em cada clube.

Aqui (no clube) a gente fez um acordo com o Ceará. Sim, a primeira proposta foi de redução de 25%. Não é que não aceitamos, a gente achou que era cedo.

Com cinco dias de parada, não dá pra saber o impacto financeiro que ninguém vai ter. Uma porque a gente achava que deveriam participar dessas rodas de debates as emissoras que transmitem os campeonatos. E a gente achava que um mês depois, no final das férias (atuais), os clubes teriam um mês de rodagem e já saberiam qual patrocinador que não vai pagar, qual vai pagar. O nível de inadimplência do sócio-torcedor, se aumentou ou não.

Um mês depois, de repente, os clubes já  têm uma visão menos turva do calendário. E aí podem passar para as empresas que transmitem pra elas  também se posicionarem a respeito do repasse das cotas. Em cinco dias é tudo muito nebuloso. 25% por que, desde o Flamengo até o Pacajus (CE)? Por que isso? Usei a metáfora de um remédio. O cara tá doente, tu dá o mesmo remédio pra todo mundo. Para uns vai funcionar, para outros não vai fazer nem cócegas e outros tu vai matar quando der esse remédio. Primeiro tem que fazer os exames para saber o quadro do paciente. E depois usar a dosagem, o remédio individualmente, né? É isso que a gente estava defendendo.

BlogO que ficou resolvido no Ceará?

Prass – A gente já entrou em acordo com o presidente. A gente aceitou até o fim das férias uma redução de salário com uma reposição futura e a gente aceitou uma outra redução, outro percentual, com algumas condições, como os meninos da base não entrarem na redução e que nenhum funcionário do clube fosse demitido.

O presidente do Ceará estava bem alinhado com nossas ideias, principalmente em relação a não demitir funcionários. Uma parte dessa redução nós vamos abrir mão para que o clube não precise demitir ninguém.

Esse acordo é pra março e abril. Aí, no fim das férias, a gente vê como está. Acho que é o mais justo para as duas partes. Não dá pra negociar no escuro.

Blog- Hoje você tem uma ideia um pouco mais formada?

Prass – Na verdade estou esperando, o governo disse que na semana que vem iriam chegar mais testes e começariam a testar em massa a população. Porque hoje a gente ainda não tem noção do que está realmente acontecendo.

Pra mim, esses números (de casos de Covid-19 no país) que estão aí hoje são completamente desconectados da realidade. Eu mesmo, tenho dez conhecidos que foram contaminados, só dois foram testados. Então, esses números são muito frágeis.

Daqui a pouco tem a testagem maior, e o número de casos aumenta muito. Por isso não estou tentando adivinhar muita coisa, não sei o número de casos. Foram dadas férias até 20 de de abril, prorrogáveis por mais dez dias. Eu acho que é muito improvável a gente voltar dia 20 de abril. No máximo, no máximo, dia 1° de maio.

BlogQual a maior preocupação com a classe, se a interrupção dos jogos por conta da quarentena se estender?

Prass – Agora é em relação aos times que só têm o Estadual. Os jogadores só tem três, quatro meses de contrato e, se a coisa se arrastar muito, o cara não vai ficar segurando… O contrato dos jogadores era até abril. Sem receitas, os caras não vão segurar esses jogadores até maio. Os caras nessa situação costumam jogar também o Brasileiro, mas ninguém vai contratar esses caras enquanto não souber como fica o calendário. 

A maior preocupação é com esses caras que podem ficar desempregados.

Blog – Estão discutindo alguma solução?

Prass – Cara, a gente está tentando tudo. O sindicato está tentando, mas é tudo muito difícil. De onde vem esse dinheiro pra auxiliar?

Os clubes estão pedindo redução de salário. A televisão poderia antecipar cotas, mas ela está suspendendo pagamentos do contrato. Agora parece que vai sair um fundo da CBF. Não sei se é um valor suficiente para os clubes se manterem. Já é um começo. Precisava ter uma linha de crédito que os clubes pudessem pagar no ano que vem, pudessem dar garantias em troca. Alguma coisa assim, mas nada disso foi discutido.

Blog – Podemos ter jogos até o final de dezembro, com uma parada para o Natal e outra para o Ano Novo. Qual sua opinião sobre isso?

Prass – É um ano atípico. Na Inglaterra se joga no Natal e no Ano Novo. Tu joga no dia 24, no dia 31.

Blog – Não vê grande problema nisso?

Prass – Eu vejo como grande problema. Mas tem coisas que não têm discussão. Outra coisa, não adianta ficar pensando em cenários futuros, queimar a cabeça, se a gente não sabe o que vai acontecer.

Daqui a pouco chega o começo de maio, voltam os campeonatos. Ou voltam em junho, a gente já tem outro cenário. Vai dar pra encaixar os Estaduais? A fórmula do Brasileiro vai ser mantida? Os brasileiros que estão na Libertadores conseguem disputar a Copa do Brasil?

Aí tem um outro cenário: volta em julho. Aí não tem jeito para os Estaduais. Como ficam as outras competições? O Brasileiro consegue manter as datas para terminar em pontos corridos?

A gente tem que ir analisando o cenário de duas em duas semanas para ver o que acontece. Não tem como preencher agora todas as lacunas de questionamento que existem agora.

Blog – Não adianta nem perguntar o que você acha de transformar parcialmente o Brasileirão em mata-mata.

Prass – Não dá, precisamos esperar para ver o que vai acontecer. Outro dia ouvi o presidente de um clube do Rio de Janeiro falando que por respeito aos clubes pequenos tem que terminar o Estadual. Sim, tem que acabar. Mas, e se não tiver data? Não é uma questão de querer prejudicar ou beneficiar alguém. É uma coisa que é matemática. Quando for liberado para voltarem os jogos, provavelmente ainda na volta sem público, vamos ter que sentar e analisar o campeonato.

Dá pra encaixar o Estadual, a Copa do Brasil, a Libertadores, o Brasileiro. Vamos ter que sentar e ver como vai ser.

Vai ser ruim pra todo mundo, pra televisão, pros clubes, pros jogadores, vai quebrar o calendário do ano, de repente férias… Mas não tem o que fazer. 

Blog – Acha que os jogadores estão organizados, unidos pra retomar essa discussão? Porque existe um problema histórico de união entre jogadores.

Prass – Não é nem questão de desunião, é questão de omissão, de comodismo. Não é querer desmerecer ninguém, mas quem vai decidir isso, quem tem voz ativa são os jogadores da primeira divisão que estão no topo da pirâmide. Isso a gente tem que saber. Porque são jogadores que têm maior poder de barganha, tem um posicionamento mais forte, mais condições de ponderar alguma coisa. Até porque o campeonato mais importante e mais lucrativo é o Brasileiro. Então, são jogadores que têm uma condição melhor, mas muitas vezes, por comodismo, não se preocupam em discutir, em debater muito.

Às vezes acontecem esses eventos, como essa pandemia e aí começa a se discutir um monte de coisa. Acho que a gente peca nisso aí. A gente precisa de uma pandemia dessas pra levantar alguns questionamentos no futebol brasileiro que já são de décadas.

A gente, não sei por qual motivo, não só jogadores, clubes, federações e até o governo mesmo nunca botou o dedo na ferida. Agora, por causa de uma pandemia, começam a discutir. A gente tinha que discutir isso mais profundamente em momentos de maior calmaria.

Blog – Colocar o dedo na ferida, você se refere principalmente a calendário?

Prass – A tudo. Todo mundo sabe que o futebol brasileiro é um produto subaproveitado, é nítido. Os caras buscam aqui os melhores jogadores, tem um campeonato muito equilibrado. Acho que é mal vendido, mal trabalhado. Os clubes são muito mal administrados, não têm um norte, um regulamento, um código de conduta que devem seguir, não tem o fair-play financeiro que na Europa já tem faz muito tempo.

Isso é impossível de se conceber. Estão pensando num modelo de fair-play. O Bom Senso FC levantou essa bola lá em 2013. E o Brasil não tem nada ainda, a gente vê cada barbaridade que é brincadeira.

Blog – Acha que o futebol brasileiro pode sair da pandemia mais preocupado com essas questões?

Prass – Não sei. Nessa primeira abordagem não vejo isso. Vejo os caras mais preocupados com o momento. Não tá errado também porque a emergência é agora. Tomara que surja uma semente de alguma coisa mais construtiva, mais duradoura. Não uma coisa só pra apagar incêndio.

Blog – Claro que todas as categorias são importantes, mas você acha que num momento de crise como o de agora, por causa da imagem de que jogador ganha bem, as autoridades acabam esquecendo dos jogadores desempregados, de jogadores que se aposentaram e enfrentam dificuldades financeiras… É uma categoria que fica meio esquecida?

Prass – Não é esquecida, não. Dá pra usar a palavra preconceito. Porque se cria esse estereótipo de jogador, que é o que tu vê na televisão. A televisão não passa a Série D do Campeonato Brasileiro. Tu pega a internet nas férias tem lá: 'veja as férias dos jogadores, mas aparece só Neymar, Cristiano Ronaldo, Messi, Gabigol. Eles não mostram as férias do fulaninho que está na quinta divisão.

Isso contribui muito para formar o estereótipo do jogador. Aconteceu aqui no Estado do Ceará. O sindicato fez uma campanha pra doar cestas básicas pra ex-atletas e atletas que estão desempregados, e um dos atletas relatou que no bairro dele tinha tido uma distribuição de cestas básicas. Mas disseram que pra casa dele não precisava porque ele é jogador de futebol. Quer dizer, é uma visão distorcida. Se tu for ver por aí tem dados de quanto por cento dos jogadores ganham mais de dez salários mínimos. É um ponto alguma coisa por cento.

Prass – Como reverter isso?

Aí depende muito mais da própria mídia do que dos jogadores. Eu sempre brinquei, porque os caras não fazem um reality, um mês acompanhando a vida do Joãozinho que joga lá na série D para ver como ele faz desde o começo do ano, como ele faz a preparação dele, como ele faz pra pagar as contas, como é a vida dele. Porque do Cristiano Ronaldo, do Messi todo mundo já sabe.

Blog – No futebol cearense há jogadores que foram afetados pelos efeitos da pandemia?

Prass – Tem, sim. Tem jogadores que já foram dispensados pelos clubes. Jogadores que tinham contrato, mas os clubes rescindiram porque não tinham dinheiro para pagar. O cara tinha três meses de contrato e cumpriu só um mês e meio, o campeonato parou, aí o cara fica desempregado, não recebe. Já é corriqueiro no futebol brasileiro tu jogar e não receber. Numa situação econômica dessas, imagina, deve ter triplicado o número de casos.

Blog – Vocês estão fazendo alguma coisa para ajudar esses jogadores?

Prass – Através do sindicato, estamos fazendo na medida do possível, conforme o sindicato passa pra gente.

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

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