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Galo tem R$ 9 mi para parte de dívida por Maicosuel, mas não pagará salário

Perrone

26/04/2020 04h00

Sérgio Sette Câmara, presidente do Atlético-MG, vive neste fim de semana uma situação desesperadora, segundo suas próprias palavras, enquanto vê se esgotar o prazo para pagar dívida cobrada pela Udinese na Fifa. A cobrança se refere à compra de Maicosuel em 2014, na gestão de Alexandre Kalil, hoje prefeito de Belo Horizonte.

Câmara afirma ter R$ 9 milhões, o que dá para quitar apenas parte do débito, pouco superior a R$ 13 milhões, incluindo impostos. O dirigente diz também que, se desembolsar esse valor, não terá dinheiro para pagar os próximos salários de jogadores, comissão técnica e funcionários. Já há atrasos. Se a quitação não for feita no prazo estipulado pela Fifa, o Galo perderá três pontos no Brasileirão 2020. Abaixo, leia o relato do presidente atleticano feito a partir de perguntas do blog em entrevista por telefone.

"Estou aqui hoje, um sábado, quase cinco horas da tarde, e eu não tenho perspectiva de fazer o pagamento na segunda-feira (27). Se eu não fizer, o Atlético vai tomar três pontos na cabeça. Não sei te dizer direito quais os desdobramentos, mas tenho a impressão de que (além de tirarem três pontos) eles fixam um novo prazo, uma nova penalidade esportiva, que não sei dizer qual é, se é outra perda de pontos ou já é rebaixamento. É desesperador porque me pegou no pior momento, no meio do coronavírus, não tem receita, não tem futebol, não tem Globo, não tem venda, não tem mercado para vender jogador, não tem nada. E o euro acima de R$ 6. Ainda tem uma crise política no Brasil. Aqui tudo é pior. Além da crise na saúde e da crise econômica tem uma crise política que ajuda a fazer com que uma dívida que era de (cerca) de R$ 10 milhões passe para mais de R$ 13 milhões (R$ 13.165.000 pelas contas do dirigente na cotação do euro na última sexta, quando a moeda rompeu a barreira dos R$ 6 no dia do pedido de demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça). E aí o que acontece? Todo esse dinheiro, num momento desses, acho que assim, qualquer time grande, se você falar que tem que tirar do bolso agora mais de R$ 13 milhões de reais, ele vai passar por muita dificuldade. Com esse dinheiro eu poderia deixar toda a minha folha, CLT e imagem, em dia. Ficaria com tudo em dia, salários de jogadores e funcionários. Mas eu não vou poder pagar esses caras. Qual a ideia? Eu vou tentar pagar (a dívida na Fifa) com o que eu tiver em caixa, uns R$ 9 mihões e, se a Fifa aceitar como parte do pagamento isso aí, beleza. Senão, vai nos punir com três pontos. É desesperador.

Agora quem é o culpado, sou eu? 'Ah, você não fez uma reserva'. Pelo amor de Deus, eu já paguei R$ 60 milhões de dívidas referentes a contratações que eu não fiz. Estou pagando Ronaldinho Gaúcho na Justiça do Trabalho. E no segundo semestre ainda vem o Douglas Santos.

A Fifa foi muito insensível. Num tempo de coronavírus em que você tem contratos de trabalho sendo suspensos, contratos bancários sendo suspensos ou prorrogados, Imposto de Renda (com prazo de declaração prorrogado), o próprio FMI deu uma prorrogação para os países que devem. Acho que assim, é mundial esse sentimento de que é preciso prorrogar, negociar ou parcelar dívidas. Eu fiz uma proposta, por escrito, para a Fifa. Eu disse assim: 'olha, todas as dívidas que eu encontrei na minha gestão não eram minhas e eu paguei. Estou pedindo um parcelamento'. Não é cano, nem prazo, nem prorrogação nem nada. Eu preciso de um parcelamento para poder pagar meus funcionários, mas não é o jogador, é o porteiro, o limpador de piscina. Tem 500 empregados o clube. Estou tentando não demitir. Se você demitir um pai de família numa hora dessas o cara vai passar fome. Passei uma régua no Atlético, todo mundo que ganha até R$ 5 mil eu tenho feito o pagamento. Agora, não vai me sobrar nenhum centavo no cofre. E ela (Fifa) foi implacável comigo. Fui atrás de todo mundo, CBF, Conmebol, não consegui nada. Então, acho que a Fifa foi extremamente insensível com os clubes das federações pobres. Eles soltaram uma nota indicando redução de salários, isso é bem a cara da Europa, e que não haveria condescendência em relação a dívidas.

A Fifa não aceitou nossa proposta de parcelamento. Falei com todas as pessoas que você possa imaginar. Não deixamos de pagar nenhuma dívida que estourou aqui. Como não aceitaram o parcelamento? Nossa proposta era para parcelar em oito ou nove vezes, eram parcelas de 200 mil euros. A Fifa pode dizer: 'mas a dívida é de 2015'. Aí tenho que enfiar a viola no saco.

Não vou ter condição de pagar o salário de ninguém, de atleta, de comissão técnica, de funcionário e não vou conseguir pagar a Fifa no valor total. O dinheiro que eu tinha para pagar, R$ 10 milhões, pelo câmbio, (a dívida) virou mais de R$ 13 milhões. Não tem milagre. Vou tentar alguma coisa na segunda-feira. Se bobear, vou tentar até vender alguma coisa pessoal para tentar pagar. O que eu vou fazer? E você vender alguma coisa pessoal numa época dessa, sabe como funciona, né? Vale R$ 8 milhões, mas o cara te paga R$ 3 milhões.

Tentei todos os tipos de empréstimo, mas não consegui. Os bancos menores cortaram a conta garantida (similar ao cheque especial) dos clubes. Os bancos maiores não estão mantendo mais aquele cheque especial com os clubes. Então, secaram todas as fontes.

As cotas de TV do estadual já tínhamos recebido antecipadamente. Os patrocínios maiores que eu tenho aqui (BMG e MRV) já tinham pago. Nos patrocínios menores, pediram suspensão ou redução. A gente entende. Os caras não estão faturando, vai fazer o que? Aí você não tem bilheteria, sócio-torcedor não decola, não tem TV, não tem venda de jogador porque nenhum clube da Europa vai comprar agora. E, se forem comprar amanhã, jogador seu que valia 4 milhões de euros,  os caras vão oferecer 1,5 milhão de euros. É o mercado. Salário dos jogadores e comissão técnica nós aplicamos a Medida Provisória, aplicamos a redução de 25% sem devolução.

Tenho até o fim do nosso horário bancário na segunda para fazer o pagamento (da dívida na Fifa). Esperança de reverter esse quadro? Pouca. Estou tentando aqui, vendo com alguns amigos, tentando complementar o valor, não estou nem dormindo. Mas o que eu posso fazer? Já fiz tantos pagamentos no passado, e agora mais esse, fruto de irresponsabilidade de gestão anterior que caiu no nosso colo. O que eu posso fazer? Não tem mais lugar para irresponsabilidade de sair comprando jogador e achar que não vai dar em nada. Não é só ficar levantando caneco e deixar a herança maldita para os outros presidentes. A conta chegou. E caiu no meu colo".

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.