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'MP do Flamengo' recoloca discussão sobre Liga Nacional em pauta

Perrone

22/06/2020 09h43

O deputado Pedro Paulo (DEM-RJ), autor do projeto de lei que cria o clube-empresa, trabalha para aproveitar a análise da MP 984, que altera a venda de direitos de transmissão de jogos de futebol no Brasil, para tentar alavancar a criação de uma Liga de clubes.

Na última quinta (18), dia da publicação da Medida Provisória, ele conversou com representantes de agremiações sobre incluir a formatação da Liga na pauta. Porém, há entre pelo menos parte dos cartolas rejeição à ideia de discutir o tema no Congresso Nacional, mesmo sendo favoráveis a uma nova associação.

A Medida Provisória, conhecida como "MP do Flamengo", dá ao mandante o poder de vender os direitos de transmissão referentes à partida. Antes, a comercialização precisava de autorização das duas partes.

Pedro Paulo vê um avanço no modelo definido por Jair Bolsonaro e que depende de aprovação do Congresso, mas entende que ele deve evoluir para uma negociação coletiva dos clubes com as emissoras de TV. É aí que entra a Liga.

"Acho que a gente tinha o pior modelo, com essa história de acordo entre mandante e adversário. Isso prejudicava muito o produto, dificuldades de distribuição, não dava segurança para o investidor. Com a MP a gente passou para um mundo melhor do que o anterior, que é o direito pertencer ao mandante. Só que é um mundo muito arriscado, porque você poder ter grandes ganhadores e grandes perdedores e você pode caminhar para um individualismo que pode, em longo prazo, reduzir a competitividade do Campeonato Brasileiro, que é um dos grandes diferenciais que a gente tem. Acho que o caminho que a gente tem que seguir é que esses direitos, ainda que pertençam ao mandante, sejam negociados coletivamente pelo clubes. Que o produto TV seja negociado por eles. Os clubes decidem como dividir", disse Pedro Paulo.

O parlamentar explica o espaço que enxerga para a articulação de uma Liga. "Devemos aproveitar a MP e rediscutir os direitos de transmissão, dar um passo além do que foi dado. E pode ser uma oportunidade para provocar essa organização dos clubes em Liga. Acho que a Liga deveria ser uma discussão anterior aos direitos de transmissão, mas como essa MP atropelou, a gente pode fazer a partir dela a discussão, que inclui  os direitos de transmissão a partir dos interesses de uma Liga", declarou o parlamentar.

Apesar de a criação de uma Liga Nacional ter sido discussão infrutífera durante décadas no país, o parlamentar entende que o debate nāo seria longo a ponto de nāo acompanhar o ritmo da tramitação da MP.

"Não acho uma discussão mais longa. É só você conversar com cada presidente de clube, todos eles querem a Liga. A questão é a CBF. Acho que ela deveria sair na frente e organizar isso, como fazem, por exemplo, os franceses. A Federação Francesa organizou a Liga profissional. E a Liga Profissional é parte da estrutura da Federação Francesa. Ou o modelo brasileiro pode seguir o modelo espanhol. Na minha opinião, em algum momento, isso (o sistema atual de relação entre clubes e CBF) vai se romper. Eu costumo dizer que vai ser no amor ou vai ser na dor. Ou a CBF organiza a Liga dos clubes e participa dela, ou isso vai acontecer como já foi o movimento do Clube dos 13" afirmou Pedro Paulo.

Ele ainda sugere que o Flamengo assuma a liderança da discussão sobre a fundação de uma nova associação de clubes. Isso por conta da vantagem financeira e esportiva que o clube abriu sobre os rivais e pela força demonstrada pelo rubro-negro com a MP. Um dia antes da publicação dela, Rodolfo Landim, presidente flamenguista, se reuniu com Bolsonaro.

O blog tentou falar com Landim por meio da assessoria de imprensa do Flamengo, mas não obteve resposta até a conclusão deste post.

Pelo menos parte dos dirigentes defende que a discussão sobre uma eventual Liga seja feita sem a participação de parlamentares.

"Acho que criação de Liga não é tema de deputado. É tema dos clubes. Não vejo sentido uma lei obrigar união de clubes, seria uma união forçada e não orgânica. Mas sou absolutamente favorável à união dos clubes, mesmo que nem todos estejam presentes no primeiro momento", declarou Guilherme Bellintani, presidente do Bahia.

Segundo o dirigente baiano , a discussão sobre a formação de uma Liga sempre acontece entre os clubes. Vale lembrar que o modelo já é previsto na legislação brasileira.

Sérgio Sette Câmara, presidente do Atlético-MG, defende que e os clubes se reúnam numa entidade só deles e crítica a forma como a MP foi feita.

"Nem dirigente e nem parlamentar havia falado comigo sobre o tema (relativo à MP). Foi um voo solo do Landim. Acho que a forma como foi feita pegou todo mundo de surpresa, e isso incomodou os presidentes. Mas como negócio, parece ser muito bom para os clubes grandes, e péssimo para os pequenos. Como penso no futebol como um todo, e não apenas olhando para o meu próprio umbigo, quero crer que o assunto precisa ser melhor debatido, embora esse parece ser um caminho sem volta, como já acontece em toda a Europa. Contudo, passa a ser muito mais importante agora que os clubes da Série A, a exemplo do que acaba de ocorrer na Série B, se unam através de uma associação, para que tenham muito mais força em negociações de todo tipo em favor dos clubes",  afirmou o presidente do Galo.

Cartolas e parlamentares entendem que as discussões sobre a MP e a eventual criação da Liga vão esquentar nessa semana.

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

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