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Opinião: é injusto dizer que dinheiro tornou trabalho de Jesus fácil no Fla

Perrone

14/06/2020 11h54

Em entrevista para a ESPN Brasil, Antônio Roque Citadini disse preferir  ver no Corinthians Tiago Nunes a Jorge Jesus. Afirmou ainda que é fácil fazer um grande trabalho com elenco forte e cofres cheios, em referência ao desempenho do português. Respeito, obviamente, mas discordo.

Vejo grande injustiça com Jesus nessa declaração do conselheiro corintiano: "o time estava montado, tinha muito dinheiro. Aí, fica fácil".

Não é tão fácil assim. Cansamos de ver elencos milionários sucumbirem. Para ficar num exemplo recente, mesmo com investimento muito maior, o Palmeiras de 2017 foi vice do Corinthians no Brasileiro, além de não vencer a Libertadores, diferentemente do Flamengo de Jesus, que ganhou as duas competições.

É preciso dizer também que o português não pegou uma equipe tão afinada assim como as provocantes palavras de Citadini podem fazer parecer.

Basta lembrar que Abel Braga, seu antecessor, já tinha um grupo forte, mas não conseguia fazer a equipe render o que diretoria e torcida esperavam.

E o trabalho de Jesus não foi só botar astro para jogar. O caso de Arão é o principal exemplo. O treinador tem participação direta na evolução do volante, que virou peça importante no time vencedor.

Porém, a questão é mais profunda. É extremamente difícil um treinador estrangeiro iniciar um trabalho num país que não conhece e obter resultados tão rapidamente como Jesus obteve.

Também não é fácil administrar um vestiário estrelado como o rubro-negro. Jesus deu conta do recado.

Também não é fácil manter uma equipe jogando em alto nível por tanto tempo sem que seus adversários consigam neutralizá-la.

Dá mesma forma, não é moleza voltar para a temporada seguinte e manter motivado um time tão vencedor. E o português fazia um bom trabalho até a pandemia de covid-19 interromper a temporada.

Olhando para o outro treinador citado por Citadini, vemos um dos melhores trabalhos de um técnico no Brasil em 2019, atrás do português. Sem a mesma receita, mas com mais tempo de trabalho, Tiago teve no Athletico um desempenho excelente, que justificou sua contratação pelo alvinegro.

Porém, não foi tão rápido para se adaptar ao novo clube quanto Jesus. Sim, sua proposta foi mudar radicalmente o estilo de jogar da equipe, o que não é fácil. Mas é mais difícil do que chegar num país diferente e ter que comandar o time mais caro do local com a obrigação de vencer rapidamente? Acredito que não. São tarefas com semelhante grau de dificuldade.

Acontece que Nunes, na minha opinião, cometeu muito mais erros no Corinthians do que Jesus no Flamengo. Desde falhas estratégicas, como não assumir a equipe já no ano passado, a erros na escalação.

É bom recordar também que, se não teve reforços milionários, Nunes viu a diretoria, sem dinheiro, se desdobrar para trazer jogadores que estavam em sua lista. Luan é o caso mais emblemático.

Agora, concordo com o conselheiro corintiano no momento em que ele  diz que "vocês estão encantados", ao falar da reação da imprensa a respeito do trabalho do português.

Falo por mim: estou encantado mesmo. Encantado com a rapidez com que ele fez o Flamengo render, com sua busca pela vitória mesmo fora de casa e com a aula que ele deu para os colegas brasileiros ao evitar poupar time para priorizar uma determinada competição. Encantador.

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

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