PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

Eleição no Corinthians: candidato fala em 'fim de benesses' para agentes

Perrone

04/07/2020 04h00

Entrevista com Augusto Melo, oposicionista e candidato à presidência do Corinthians na eleição marcada para 28 de novembro.

Entre suas propostas está escrito "fim das benesses para empresários". O que isso significa?

Fim das benesses para os empresários é acabar com a farra da base, né, Perrone? Quando eu fui diretor da base, nós tiramos empresário do vestiário da base. Empresário comia lanche das crianças, tomava suco das crianças. Nós tiramos a farra dos empresários no vestiário da base. Com a gente na presidência, jogador da base vai ser do clube, 100%. Claro que existe uma parcela quando você traz o jogador de outro clube, mas, hoje, essa parcela seria de 20%. O Corinthians ficaria com 80%. (Nota do blog: Melo foi assessor da diretoria de futebol de base na gestão de Roberto de Andrade, do grupo de Andrés. Em 2016, ele era assessor do diretor José Onofre de Souza, que entregou o cargo após uma série de problemas no setor. Melo e os outros assessores também acabaram saindo).

Quando eu li "fim das benesses" imaginei que você se referia a parar de contratar jogadores principalmente de um pequeno grupo de empresários.

É isso também, acabar com algumas comissões. Por exemplo, quando você compra o jogador, você não tem que pagar comissão, quem paga comissão é quem está vendendo. Hoje se paga comissão pra comprar e pra vender. Nós vamos acabar com esse tipo de comissão (na compra). E empresário também, são sempre os mesmos. Claro que, hoje, você falar que vai acabar com empresário, isso não existe, porque o jogador nasce e já tem empresário. Mas nós teremos um controle rigoroso sobre isso. Tanto que estou implantando compliance para isso. Para eu também ser investigado, os diretores serem investigados, o treinador ser investigado, os jogadores serem investigados, os funcionários serem investigados, tudo nesse sentido. Por que só faz contratação com esse empresário? Por que dois empresários estão oferecendo (o jogador) pelo mesmo valor e você vai comprar com A, não com B, entendeu? Vamos acabar com essas coisas. E outra, você também tem que dar chance para o empresário pequeno, que às vezes tem uma joia rara que ele descobriu em algum lugar. Você tem que dar uma abertura para esse pessoal também. Mas tudo com contrato rigoroso, contrato de risco. Como o Jô, por exemplo. Por que não se faz um contrato de um ano e meio e, depois, por produtividade? Se ele for bem como foi na última passagem, você renova com ele. Agora, você não pode ficar correndo risco do (volante) Cristian da outra vez. Faz um contrato enorme, o cara se acomoda e fica recebendo pelo resto da vida. Na nossa gestão não vai ter isso. E contratação vai ser de qualidade, não em quantidade.

Você falou em compliance. Hoje, todo candidato à presidência de um clube fala em compliance. Então, é importante esclarecer como vai ser isso. Pode explicar melhor? Quem fiscaliza?

Isso é o departamento de compliance, que nós já criamos. Não é só de fala, o meu diretor de compliance se chama doutor Luís Castelo, um advogado tributarista renomado, palestrante, já está montando um departamento no qual ele tomará conta de tudo e tudo que for contratação, compra, venda, gastos em geral, sempre vai ter o complaince por trás investigando porque está sendo feito dessa forma. Por que está sendo feito com essa pessoa, vai ser investigada toda empresa de terceirização, funcionários, diretores, conselheiros, presidente, jogadores, enfim, geral. Justamente pra isso, pra inibir certas transações obscuras, essas coisas todas.

Seu programa prevê estabelecimento de metas, isso vai ser em geral, para jogadores, diretores…

Em geral, departamentos, diretoria, assessores. O clube vai ser gerido por metas. Por exemplo, vamos criar um departamento de marketing só para o clube (social) no qual cada departamento vai ter uma área comercial. Por exemplo, o basquete, para se manter, vai ter que trabalhar para ser sustentável. Isso vai acontecer no basquete, no vôlei, no futsal… Porque, futuramente, a gente quer separar o clube do futebol (nota do blog: as fontes de receitas seriam diferentes, mas o CNPJ continuaria sendo o mesmo). O clube (social) vai ter que ser autossustentável. Ele é autossustentável, o que falta no clube é uma administração profissional. O futebol também vai ter essas metas. Por exemplo, o Tiago Nunes chegou e falou: 'Augusto, isso aqui está sucateado, o sub-23 não fala com o sub-20, a base não fala comigo. Como eu posso ter uma transição da base para o profissional? Como a gente pode ter um diálogo nesse sentido?" Então, a minha diretoria de base tem que ter essa meta, a minha diretoria do profissional tem que ter essa meta, a minha comissão tem que ter essa meta, são metas que terão que ser cumpridas.

Você acredita que a maioria dos contratos dos jogadores possa ser com meta?

Não, vai ser caso a caso. Mais os contratos de risco. Por exemplo, o do Jô. O Jô para nós foi uma surpresa na última passagem dele, ninguém discute a qualidade do Jô. Excelente jogador, foi uma ótima contratação. Só acho errada a forma como ele foi contratado. A gente faria uma meta. Um ano e meio, ele já estaria com quase 35 anos, ele vem de uma lesão, um tempão parado, o que garante que ele vai render? Ele quer terminar a carreira aqui, então também tem que abrir mão de algumas coisas. A gente faz essa produtividade, depois de um ano e meio.

É um desafio convencer o torcedor dessa visão mais profissional? O torcedor, na média, não se incomodou com o fato de o contrato do Jô ser até o final de 2023  e hoje ele ter 33 anos.

Por isso é que nós estamos nessa situação, porque eles (diretorias ligadas ao grupo de Andrés Sanchez) sempre viram títulos e não viram a parte financeira, agora a conta chegou. Se você escutar a fala do presidente da Gaviões, ele fala exatamente isso. A Gaviões da Fiel, eu acho um absurdo isso, mas ela está admitindo que ela fica cinco anos sem títulos, mas coloca as finanças em ordem para não ser mais motivo de chacota, de gozação. Então, tenho certeza que, a gente colocando isso em prática, dando certo, eles vão absorver rapidamente. E esse é o futuro, não tem outra. Os clubes brasileiros estão fazendo contratos absurdos, querendo se comparar a times europeus, por isso que estão todos nessa situação.

Mas você tem um tópico no seu programa que fala em time vencedor. Como vai ser, você prevê o Corinthians sem títulos por um período para colocar as finanças em ordem?

Não existe isso, haja vista que os últimos três campeonatos nos ganhamos com time mediano. O Corinthians tem uma força inexplicável. E outra, time de futebol não se faz só com contratações de peso. O Corinthians foi campeão em 2012 (venceu a Libertadores e o Mundial de Clubes) com um time mediano, no sentido que ninguém o conhecia (nota do blog: esses títulos foram conquistados na gestão de Mário Gobbi, também candidato na próxima eleição). Todo mundo se destacou e era para ser vendido por milhões, mas foi vendido por mixaria. Nós fizemos esses jogadores. Ninguém conhecia Ralf, Paulinho, o prório Renato Augusto não tinha tanta valorização, o Cássio era reserva do Júlio César, o Alessandro era um jogador normal, o Chicão ninguém conhecia. Enfim, Jorge Henrique só jogou no Corinthians, mas se enquadrou num esquema tático, num planejamento de futuro do Corinthians. E é o que nós vamos fazer. Nós não vamos buscar jogadores baratos, vamos buscar jogadores de qualidade. O time se faz no vestiário, disso eu conheço um pouco. Todos nós sabemos que, se não tiver vestiário, não tem time, pode ser o melhor time do mundo.

Seu programa fala em respeitar o corintiano. O que isso significa?

Nós vamos trazer o Corinthians de volta para o corintiano. De que forma nós vamos respeitar o torcedor? Dando estrutura pra ele, com ingresso mais barato, com congelamento de preços. Vamos ter um congelamento anual de preços, um preço único de janeiro a janeiro. Com isso nós vamos ganhar na parte de Fiel Torcedor. Nós temos um projeto nacional de Fiel Torcedor (programa de sócio-torcedor), com o qual vamos triplicar a receita com o Fiel Torcedor. Com estádio cheio, a gente consegue um patrocinador master melhor, a gente consegue exigir um pouco mais da televisão. Então vamos respeitar o Fiel Torcedor em todos os sentidos.

Sei que isso depende de mudança estatutária, do conselho, mas você pretende dar direito a voto para o sócio do Fiel Torcedor?

Nossa intenção é essa. Não todos eles. Mas a gente quer, já no próximo ano, entrar com um projeto de estatuto da seguinte forma: o Fiel Torcedor que tem mais pontuação, mais antigo, trazer ele para o clube, para ele ser sócio do clube. Não adianta o Fiel Torcedor ficar longe do clube, porque, senão, ele não sabe o que acontece dentro do clube, ele nunca vai saber o que acontece na parte de administração, ele vai estar votando por resultado.

Como você vai triplicar o número de sócios do Fiel Torcedor?

A partir do momento em que você tem um ingresso congelado, a partir do momento em que você tem o preço do ingresso congelado automaticamente a pessoa vai ter que ficar sócia do Fiel Torcedor para ter direito a esses benefícios. É aí que ele vai aumentar. E outra, nossa intenção não é que (o sócio-torcedor) pague antecipadamente (os ingressos). É pagar no dia a dia para dar chance para outros irem aos jogos também. Por exemplo, a torcida organizada (setor norte da Arena Corinthians), tem o melhor preço do mundo: R$ 24. A parte sul tem a mesma visibilidade, então tem que ter o mesmo preço (nota do blog: por pedido das organizadas, o setor norte não tem cadeiras). Nas partes leste e oeste vamos abaixar o custo.

O que você propõe é manter o preço do setor norte e reduzir em todos os outros setores? A ideia é cobrar menos, mas ter uma média de público maior?

Isso. Vamos ter um projeto legal para as cativas. A maioria das pessoas da cativa compra o ingresso (para garantir pontos no programa de benefícios), mas não  vai. Aí você fica com ela vazia. Qual é o nosso projeto. Vamos supor, a pessoa compra uma cativa, R$ 100 o ingresso de um jogo, um dia, dois dias antes da partida, se ela resolver que não vai no jogo, eu recoloco esse ingresso na bilheteria pra vender e devolvo  pra ela 40% do valor. O clube ainda tem um lucro de 60%  com o ingresso dele.

 

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

Blog do Perrone