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Blog do Perrone

Protesto no CT explica como São Paulo construiu sua crise usando ídolos

Perrone

03/10/2020 13h34

O protesto de torcedores do São Paulo em frente ao CT do clube, neste sábado (3), ajuda a explicar como foi construída a crise do time do Morumbi.

As organizadas tricolores, em especial a Independente, fazem muita pressão quando entendem que devem fazer. Grande parte dos dirigentes teme a reação desses torcedores. Tanto que são constantes as tentativas de aproximação e pedidos atendidos.

Até aqui, nada diferente do que acontece na maioria dos grandes clubes brasileiros.

A diferença do tricolor é que a gestão Leco tomou muitas de suas decisões agradando ao torcedor, não só aquele que protesta no CT, mas também os que usam as redes sociais para se manifestarem.

Na opinião  deste blogueiro, o receio da torcida fez com que Leco adotasse medidas populares. Isso entregou cargos estratégicos a ídolos, aparentemente sem a reflexão sobre se existiam no mercado profissionais mais preparados. O mesmo aconteceu em relação à contratação de ídolos veteranos para jogar pelo time como se fossem reforços de primeira linha.

Rogério Ceni é um caso emblemático. Sua contratação como técnico deixou Leco com prestígio junto à torcida.

Mas não era preciso ser um gestor experiente para imaginar que Ceni precisava de um pouco de preparo e rodagem antes de encarar a difícil missão.

Ele poderia ter assumido outro cargo na comissão técnica ou na base para ganhar musculatura como treinador. Hoje, no Fortaleza, mostra amadurecimento e faz um bom trabalho.

A medida saborosa para a torcida gerou maus resultados e indisposição de torcedores e da diretoria com o ídolo. O time perdeu tempo em sua corrida para encerrar o jejum de títulos importantes. O último foi da Sul-Americana, em 2012.

Assim como aconteceu com Rogério, Raí e Lugano foram anunciados como dirigentes. As duas medidas amansaram a torcida, extremamente irritada.

Raí era inexperiente na função, mas seu currículo mostrava preparo. Não foi absurdo, mas, de novo, não havia ninguém mais indicado no mercado? O fato é que até agora Raí não conseguiu ajudar o São Paulo a dar uma nova volta olímpica.

Já Lugano saiu do campo para a diretoria numa posição inicialmente secundária. Difícil sustentar que não foi uma decisão principalmente para fazer um carinho nos torcedores.

No campo, tivemos as voltas de Hernanes e Pato, dois nomes que arrancaram aplausos dos fãs. Hernanes ainda é útil, porém, está ocupando a vaga de alguém que poderia render mais. Pato não justificou a contratação, o que já era esperado. Repetiu o futebol da maior parte de sua carreira.

Sua nova passagem pelo Morumbi, outra vez, fez o São Paulo perder tempo. O que era amor da torcida virou ódio e sua permanência  se tornou insustentável.

Além de fazerem o time não sair do lugar, todas essas tentativas frustradas com ídolos fazem a raiva da torcida voltar como um bumerangue. Só que com mais força porque a fila é maior e a coleção de fracassos aumentou.

Ou seja manter a frieza diante da braveza da torcida lá atrás, contratando os melhores profissionais que o clube pudesse pagar em vez de usar ídolos como calmantes para fãs, seria mais eficiente na minha opinião. Administrar a instituição profissionalmente no lugar de agradar aos torcedores provavelmente reduziria a quantidade de protestos.

 

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

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