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SPFC luta contra queda em meio a fim de plano que reduz força de técnico
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No final de maio do ano passado, com o time nas semifinais da Libertadores, Gustavo Vieira de Oliveira, então diretor executivo do São Paulo, celebrava o início de um projeto a longo prazo para o clube. O plano previa o fortalecimento da comissão técnica fixa tricolor, a efetivação de um modo de jogar que seria aplicado também nas categorias de base e a diminuição do poder do treinador. Entre outros benefícios para a agremiação, ele previa que as trocas de treinadores seriam menos traumáticas. Sairia o comandante, ficaria a maioria da comissão, e o novo trabalho não começaria do zero.

Hoje, pouco mais de um ano depois, vítima da combinação entre política conturbada e maus resultados em campo, o sistema idealizado pelo filho do ex-jogador Sócrates está aniquilado.

Em meio a uma de suas maiores crises técnicas e da luta contra o rebaixamento no Brasileiro, o São Paulo enfrenta praticamente tudo que o plano do ex-dirigente queria evitar: instabilidade técnica e tática, mudanças radicais na comissão técnica e  treinadores com amplos poderes.

Em setembro do ano passado, golpeado pela eliminação na Libertadores e por uma forte pressão política contra seu mentor, o projeto de Gustavo começou a virar pó com a saída dele. O presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, que havia abençoado o planejamento do executivo, não resistiu às cobranças de conselheiros e diretores, trocando o ex-dirigente por Marco Aurélio Cunha.

Seguidas mudanças na direção de futebol e no comando técnico também ocorreram. Depois da saída (contra a vontade da diretoria) de Edgardo Bauza, que simbolizava o projeto de diminuição do poder de treinadores no Morumbi, passaram pelo comando técnico Ricardo Gomes e Rogério Ceni antes da chegada do atual treinador, Dorival Júnior, sem contar os interinos.

Foram diversas as transformações de filosofia de jogo enfrentadas pela equipe, ao contrário do que previa o projeto de Gustavo.

Com a chegada de Rogério para a temporada de 2017, foi abandonada a ideia do treinador com poderes limitados. Ele trouxe dois auxiliares estrangeiros e filosofias próprias para implantar no clube.

Ceni não aguentou aos seguidos fracassos do time. Viu um de seus assistentes pedir as contas dias antes dele ser demitido.

Em seguida, veio o golpe fatal no sistema de estabilidade idealizado anteriormente. A comissão técnica fixa, antes vista como fundamental, foi parcialmente destruída. Acabaram demitidos o preparador físico José Mário Campeiz e o treinador de goleiros Haroldo Lamounier, alvos de pressão de conselheiros.

O auxiliar técnico permanente, Pintado, também não resistiu e foi convidado para atuar na integração entre as categorias de base e o time principal. Ele era fundamental no antigo projeto para diminuir o poder dos treinadores. Cabia a ele dialogar com os técnicos e trabalhar pela filosofia do clube.

Dorival chegou com um auxiliar, um analista de desempenho, um preparador físico e ainda indicou um preparador de goleiros. Ou seja, a ideia de as trocas no comando provocarem menos traumas no clube e não representarem o recomeço do zero também foi sepultada.

A atual diretoria, comandada pelo mesmo presidente que avalizou as ideias de Gustavo e com Vinícius Pinotti como executivo, nega interferência política nas trocas realizadas. Internamente, são feitas críticas à decisões do passado, da época em que o filho de Sócrates estava no comando e que estariam sendo corrigidas agora.


‘Policial’ bom e mau e técnico anti-moleza. Como o São Paulo virou o jogo
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Com Guilherme Palenzuela, do UOL em Manhattan Beach (Estados Unidos)

O cenário era desolador em dezembro do ano passado quando a diretoria do São Paulo se reuniu para traçar os planos para a temporada seguinte. Ao olharem à sua volta os cartolas viram um time sem líderes e ídolos, após as saídas de Rogério Ceni, Pato e Luis Fabiano, sem técnico, com remunerações atrasadas, e distante da torcida, que estava revoltada com a derrota por 6 a 1 para o Corinthians. Não bastasse essa situação agonizante, a política também estava em chamas após a renúncia de Carlos Miguel Aidar.

Menos de seis meses depois desse pesadelo, o clube festeja a volta por cima com uma vaga nas semifinais da Libertadores. A recuperação veio com muita tensão, discussões internas e estratégias que evidenciam um novo formato escolhido pelo São Paulo. Um sistema no qual o técnico não cuida de tudo, ficando concentrado em treinar o time. A seguir, conheça essa história em detalhes.

Técnico

Um dos primeiros passos para a reconstrução são-paulina era trazer um treinador. Mas faltava dinheiro, o que fez com que a direção demorasse mais do que esperava para encontrar um comandante.

O perfil desejado era o de alguém que não fosse um paizão para os jogadores. Na avaliação do diretor executivo Gustavo Vieira de Oliveira os atletas estavam acostumados com técnicos bonzinhos. Ele queria um pouco de tensão no relacionamento. Alguém que cobrasse constantemente os atletas.

Outro desejo era o de ter um comandante que colocasse o time para jogar de maneira simples, arrumando a defesa, se arriscando pouco e caprichando nas jogadas ensaiadas. Era a fórmula mais segura para quem tinha pouco dinheiro para contratar e tempo escasso até ir para o campo de batalha na Libertadores. Diego Aguirre foi procurado, mas a diretoria avaliou que ele não tinha a firmeza desejada.

Então, em cerca de 48 horas de análise os cartolas se convenceram de que Edgardo Bauza deveria ser contratado. Além dos outros pedidos, ele também aceitou trabalhar num regime em que o treinador não centraliza poderes.

Bauza veio para ser parte de uma sistema montado para gerir o time. Sua função não é tomar decisões fora do campo e ele respeita uma hierarquia baseada numa comissão técnica fixa. Gustavo está no topo da pirâmide. Abaixo dele está o coordenador Rene Webber, chefe de Bauza e das comissões técnicas do clube. O ex-jogador Pintado é auxiliar do treinador, mas como membro da comissão fixa é funcionário diretamente ligado à diretoria. O diretor executivo aciona os dois sem precisar passar pelo técnico, elogiado por se encaixar bem no sistema.

Reforços

A prioridade era aproximar o time da torcida, por isso, trazer Lugano foi uma das principais metas estabelecidas. Outra estratégia era trocar o talento individual pelo jogo coletivo. Até 2015, a equipe dependia na maioria das vezes de lances individuais para ganhar jogos. Como nas cobranças de faltas e pênaltis de Rogério, finalizações de Luis Fabiano (nos bons tempos) e jogadas de Ganso. Então, a preferência passou a ser por quem melhorasse o desempenho coletivo. Outro objetivo era transformar uma equipe apática em vibrante. Com essa missão na bagagem desembarcaram no Morumbi Calleri, Mena e Maicon, além de Lugano.

Vida dura

O começo de Bauza fez alguns jogadores torcerem o nariz para o treinador. Eles estranharam o fato de o time treinar até em domingo e de ter que comparecer ao CT de manhã para fazer trabalhos de recuperação um dia depois de jogos no final de semana. Começava a existir a tensão que Gustavo queria. Nada de conforto.

Depressão após protesto

Mas a tensão fugiu do controle quando os jogadores decidiram não dar entrevistas como uma maneira de protestar contra as remunerações atrasadas. Gustavo disse a eles que a diretoria não esconderia a verdade sobre o silêncio do time. E que tal situação poderia trazer consequências ruins para os jogadores.

Os atletas preferiram seguir a diante. E a derrota para o The Strongest em casa na Libertadores murchou a manifestação. Lugano foi incisivo contra o protesto, enquanto Michel Bastos defendia a greve de entrevistas. Entre os que apoiavam o movimento havia quem dizia que o uruguaio era contra porque acabara de chegar e não tinha sofrido meses com pagamentos atrasados. Lugano respondia que os colegas não conheciam o São Paulo como ele.

O vestiário rachou, e a diretoria detectou ainda uma depressão em parte do elenco pelo fato de o movimento ter fracassado. O discurso dos cartolas, então, passou a ser de que o protesto tinha vingado, já que o presidente Carlos Augusto de Barros e Silva, o Leco, foi até o CT prometer que os atrasos acabariam. O objetivo era recuperar a autoestima dos atletas afetados.

Junto com o discurso positivo, veio o dinheiro do novo acordo com a Globo e a regularização dos pagamentos.

‘Policial’ bom e mau

Outro momento importante na reconstrução tricolor aconteceu com a chegada de Pintado como auxiliar-técnico. Um roteiro manjado em filmes policiais foi traçado pela diretoria, com Webber sendo o policial mau e Pintado o bom. O primeiro cobra os jogadores, e o segundo entra em ação em seguida para motivar quem levou a dura. Enquanto isso, Bauza se preocupa em treinar o time, sem se desgastar com os atletas.

Fritura de Bauza evitada

Um dos auges da crise são-paulina aconteceu na derrota para o São Bernardo pelo Campeonato Paulista. A diretoria entendeu que parte dos jogadores via Bauza fragilizado. O temor era de que que os atletas não se esforçassem mais, preferindo esperar a chegada de um novo chefe.

Assim, a direção passou a fortalecer o técnico publicamente. Ao mesmo tempo, Gustavo teve reuniões individuais duras com pelo menos dez jogadores. Cobrou caráter, menos individualismo e mais ajuda aos companheiros.

Os atletas que compraram a ideia da diretoria passaram a ser escalados para dar entrevistas e repetir o discurso do dirigente.

Discussões no vestiário

O time obteve vitórias mesmo jogando mal, e os jogadores começaram a se cobrar, como a diretoria queria. No intervalo da vitória por 2 a 1 sobre o Oeste dois atletas quase se pegaram no vestiário. No empate em 1 a 1 com Trujillanos, pela Libertadores, também houve cobrança interna.

Outra discussão ríspida aconteceu na derrota para o Audax, por 4 a 1, na eliminação do São Paulo no Paulista.

Os jogadores começavam a mostrar o espírito desejado pela diretoria, de não aceitar passivamente resultados ruins.

Resgaste de Michel Bastos

Para diretoria e comissão comissão técnica, recuperar Michel Bastos era considerada uma missão fundamental para reerguer o time. Além de várias conversas com o jogador para mostrar sua importância, a diretoria falou publicamente que iria acionar na Fifa clubes que o assediassem. Assim, pretendia motivar o atleta. Com o mesmo objetivo, companheiros dele foram orientados a dar entrevistas elogiando Michel.

Tempo para trabalhar e torcida

A eliminação no Paulista foi considerada fundamental para a melhora do time, pois Bauza teve mais tempo para trabalhar. O time mudou de cara na Libertadores e trouxe a torcida para seu lado. Os torcedores inflamaram a equipe, acabando de moldar o espírito guerreiro que os cartolas queriam.

Futuro

Animada com o avanço na Libertadores, a direção são-paulina espera conseguir colocar em prática seu projeto de, a partir da comissão técnica fixa, criar um padrão de jogo que permaneça independentemente do técnico, aplicado também nas categorias de base. O plano é que as mudanças de treinadores sejam menos traumáticas, já que a ideia é deixar uma estrutura pronta.


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