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Análise: eleição marca esfriamento entre Corinthians e PT

Perrone

06/10/2018 04h00

O primeiro turno das eleições neste domingo (7) simboliza a mudança sofrida na relação entre Corinthians e PT por meio de representantes das duas instituições.

A proximidade de Andrés Sanchez, filiado ao partido, com Lula e o projeto da Arena Corinthians criaram laços entre as duas partes, embora o clube nunca tenha admitido formalmente o relacionamento com o partido.

A atuação de Lula para fazer o projeto da casa corintiana sair do papel é admitida por Andrés e executivos da Odebrecht. Na esteira dela, as afinidades entre os dois lados aumentaram gradualmente.

Como presidente da República, o principal dirigente do PT fez discurso no Parque São Jorge para festejar o centenário alvinegro. Em 2012, como ex-presidente corintiano e diretor da CBF, Sanchez escoltou Fernando Haddad por ruas da Zona Leste pedindo votos para o colega de partido tentar se eleger prefeito. Andrés se elegeu deputado federal pela sigla.

A idolatria ao líder petista podia ser medida numa foto dele na sala da presidência corintiana. Ela foi retirada no final de 2016, durante a gestão de Roberto de Andrade, quando Lula já estava acuado pela Lava Jato. Oficialmente, o quadro saiu temporariamente junto com todos da sala por conta de uma mudança na decoração.

Com Lula fora da presidência e cada vez mais atingido por acusações, o relacionamento começou a ficar menos amistoso. O ex-presidente da República foi alvo de um procedimento no Conselho Deliberativo do clube que poderia culminar com sua exclusão do órgão por excesso de faltas não justificadas às reuniões. Em agosto de 2016, ele renunciou ao cargo de conselheiro vitalício, concedido ainda na gestão de Alberto Dualib.

Em outra frente, mesmo fora da presidência, Andrés se desgastava com Haddad, então prefeito paulistano, por conta de dificuldades envolvendo os CIDs (Certificados de Incentivo ao Desenvolvimento) usados para arrecadar recursos visando o pagamento da dívida corintiana pela construção de seu estádio.

Em novembro de 2017, conforme reportagem do jornal "O Estado de S. Paulo", Sanchez chamou o ex-prefeito de mentiroso e incompetente durante depoimento ao Ministério Público. As declarações foram dadas em investigação aberta após o atual candidato à presidência pelo PT dizer ter recebido denúncia de que o promotor Marcelo Milani havia pedido dinheiro para não entrar com ação contestando a legalidade dos CIDs. O cartola corintiano e o promotor negam o episódio.

Nesse cenário de animosidades, diferentemente do que fizera em 2012, Andrés não saiu em campanha ao lado de Haddad para ajudar o candidato de seu partido à presidência.

O corintiano também decidiu não tentar a reeleição como deputado federal, dinamitando, ainda que involuntariamente, mais uma ponte que ligava o alvinegro ao PT. Essa ligação hoje não só é rejeitada por influentes cartolas corintianos como notadamente causa constrangimentos por conta da prisão de Lula e das diversas acusações que assolam o Partido dos Trabalhadores.

Enquanto o vermelho do PT descolore no Parque São Jorge, outros partidos começam a pintar suas cores por lá. O PSD, que apoia Geraldo Alckmin (PSDB) para a presidência, tem o deputado federal Antonio Goulart presidindo o Conselho Deliberativo corintiano. Ele tenta a reeleição na Câmara.

Luis Paulo Rosenberg, diretor de marketing do clube, faz campanha para Monica Rosenberg, sua filha, candidata a deputada federal pelo Novo, que tem João Amoêdo como candidato à presidência. Um dos vídeos da propaganda dela divulgados pelo dirigente há menção a petistas como corruptos e a esquemas que "criaram raízes".

No entanto, ainda existem no Parque São Jorge heranças do auge do romance entre clube e PT. Uma delas é a atuação de Joana Saragoça, filha de José Dirceu, como funcionária do clube. Ela foi contratada em 2015 após indicação de Andrés, que não estava na presidência. Sempre que questionados sobre Joana, dirigentes corintianos elogiam seu trabalho.

Na diretoria de relações institucionais e internacionais o titular é Vicente Cândido, colega de Andrés como Deputado Federal pelo PT, mas que também não tentará a reeleição.

Tanto Monica como Cândido costumam ficar fora dos holofotes. Também sem visibilidade é como a maioria dos dirigentes corintianos parece querer que fique o recente passado de afinidade com o partido de Lula. A rejeição a esse histórico é deselegante.

A questão que ainda carece de resposta é: como vai ser o relacionamento de Andrés com Haddad e a relação institucional entre o clube e o governo caso o PT volte à presidência?

 

 

 

 

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

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