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Análise: não há 'bolha' que elimine risco de casos iguais ao do Catarinense

Perrone

14/07/2020 04h00

Depois que a Federação Catarinense adiou rodada das quartas de final de seu Estadual por conta de 14 testes positivos para covid-19 na Chapecoense e de o Governo Estadual suspender as atividades esportivas no Estado por 14 dias fica a pergunta: outros estaduais pelo país podem passar por situação semelhante?

Conversas recentes e outras realizadas durante o crescimento da pandemia no país com infectologistas e outros profissionais da saúde dão a este blogueiro uma série de elementos para afirmar que sim, outras competições podem ter partidas suspensas por causa da contaminação de jogadores.

Uma série de elementos mostra que não há protocolo de prevenção totalmente seguro para a volta futebolística.

Uma das ameaças é a margem de erro dos testes feitos para identificar indivíduos comtaminados.

"Os testes não são perfeitos. Eles têm entre 30% e 40 % de chance de falso negativo. Depende da técnica de coleta e da qualidade dos kits.
Mas os melhores resultados são de 80% de sensibilidade, ou seja ainda teremos 20% de chance de alguém, jogador ou outro profissional, ter teste negativo e estar contaminado", explicou ao blog o médico Luciano Cesar Pontes de Azevedo. Ele é intensivista e pesquisador do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo.

Para sabotar os protocolos elaborados pelas federações existe também o risco de um jogador contaminado treinar e infectar os companheiros antes de fazer teste com resultado positivo.

Contra essa possibilidade, Moisés Cohen, presidente da comissão médica da Federação Paulista, aposta numa rotina de questionários a serem feitos pelos clubes com seus profissionais para tentar descobrir com antecedência eventuais casos de contaminação.

Buscar o diagnóstico precoce faz parte da riqueza de detalhes necessária para que se evite casos como o da Chape.

Até a "bolha" projetada pela Federação Paulista, com concentração integral até o fim da competição, tem suas janelas. E se um funcionário de um hotel em que determinado time se concentra for contaminado em casa ou em outro ambiente não controlado pelo clube?

"Tudo pode pode acontecer. Mas todos que tiverem contato com os jogadores vão ser testados. Você vai diminuindo as chances. Você ter um funcionário testado, bem orientado para se preve.nir voltando pra casa é bem melhor do que todos os jogadores indo e voltando. Ter 100% de segurança, infelizmente é impossível. Mas, estando testado, negativado e concentrado, a chance de contaminação é muito menor do que se o cara for para casa e voltar todo dia. Então, estamos numa situação diferente em relação ao Catarinense", disse Cohen.

O Estadual de Santa Catarina voltou sem concentração integral obrigatória, mas agora a viabilidade da medida é estudada. Por causa do decreto estadual, neste momento, a competição está suspensa por 14 dias.

A corrida de obstáculos enfrentada por dirigentes e médicos de clubes por una retomada mais segura inclui até o fato de a volta acontecer no inverno. Nessa estação costuma haver aumento dos casos de doenças respiratórias.

Em junho, durante entrevista ao blog, o médico e cientista brasileiro renomado internacionalmente Miguel Nicolelis classificou como absurda a volta dos times aos treinos e alertou para a questão das temperaturas mais baixas no Sul do país no inverno.

Análises e explicações dadas por especialistas da área da saúde tornam sem surpresa o fato que aconteceu em Santa Catarina e alertam para a possibilidade de o caso se repetir em outros estados.

Não é coincidência o fato de Luiz Henrique Mandetta, pouco depois de deixar  o Ministério da Saúde, ter indagado em entrevista ao canal "Globonews" o que os dirigentes fariam se um jogador infectado contaminasse os demais. Ele perguntou ainda se o campeonato seria suspenso de novo. O enigma parece ter começado a ser desvendado em Santa Catarina.

Sobre o Autor

Ricardo Perrone é formado em jornalismo pela PUC-SP, em 1991, cobriu como enviado quatro Copas do Mundo, entre 2006 e 2018. Iniciou a carreira nas redações dos jornais Gazeta de Pinheiros e A Gazeta Esportiva, além de atuar como repórter esportivo da Rádio ABC, de Santo André. De 1993 a 1997, foi repórter da Folha Ribeirão, de onde saiu para trabalhar na editoria de esporte do jornal Notícias Populares. Em 2000, transferiu-se para a Folha de S.Paulo. Foi repórter da editoria de esporte e editor da coluna Painel FC. Entre maio de 2009 e agosto de 2010 foi um dos editores da Revista Placar.

Sobre o Blog

Prioriza a informação que está longe do alcance das câmeras e microfones. Busca antecipar discussões e decisões tomadas por dirigentes, empresários, jogadores e políticos envolvidos com o futebol brasileiro.

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